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O que os professores do CTC/UFSC pensam sobre ações afirmativas

No ano passado, logo após um jornada de lutas e a greve na UFSC, recebemos mensagens enviadas pelo professor Sergio Colle à lista de emails do Centro Tecnológico (CTC/UFSC). As mensagens eram nitidamente racistas e misóginas. Você pode ler esse material na nossa reportagem especial do Vaza-Colle.

No último mês, recebemos mais um pacote de mensagens da mesma lista institucional de e-mails, só que agora não apenas do professor Colle embora, não surpreendentemente, ele também esteja entre os ilustríssimos. As mensagens discutem a aprovação, pela Câmara de Pós-Graduação (CPG), da resolução normativa que prevê ações afirmativas em toda a Pós-Graduação da UFSC, posteriormente aprovada também no Conselho Universitário (CUn). A aprovação ocorreu com unanimidade no CUn no dia 27 de outubro, com votos favoráveis inclusive da representação do CTC, visto que o diretor Edson De Pieri e o representante docente Márcio Holsbach felizmente não sustentaram as posições proferidas na lista de e-mails do centro.

Compartilhamos aqui as mensagens que recebemos, com veracidade comprovada por nossas peritas, para que todas possam conferir esse debate “ridículo, imbecil e que só envergonha quem participou desta bobagem”, emprestando as palavras de um dos docentes.

Ao longo de todo o mês de outubro, o conjunto das agressões vistas abaixo foram veiculadas na lista Discussões CTC, onde estão cadastrados cerca de 200 docentes, mais da metade do corpo que atua no Centro, sem que houvesse um único e-mail expressando repúdio ou mesmo desacordo com aquilo que era proferido.

Os professores aqui, como se pode perceber nas fotos, são todos homens cis brancos temerosos de perderem seu espaço de hegemonia garantido historicamente. Sem coragem para apresentar seu racismo, capacitismo e aversão às pessoas pobres por aí,  restringem-se a reclamar, agredir e ofender dentro de uma lista de e-mails onde se consideram maioria

Consideramos que é de interesse de toda a comunidade universitária e da sociedade saber o que é dito por professores de nossa instituição e o que eles esperam dos caminhos de nossa universidade, pois sua visão tem relação direta com a postura que adotam nas salas de aula e na gestão de nossa instituição.

Pois não passarão! A luta segue para uma UFSC, e uma pós-graduação, cada vez mais preta, indígena, quilombola, trans, com mulheres, pobres e pessoas com deficiência. E seguimos desde baixo pra fazer com que não haja paz para os de cima!

A íntegra dos e-mails pode ser acessada aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RP debatendo as políticas para ciência e universidade na rádio comunitária

Na terça (27/09), um militante da Resistência Popular Estudantil – Floripa e da APG UFSC participou do Jornal Integração, programa de rádio vinculado à Associação Catarinense das Rádios Comunitárias, retransmitido em diferentes veículos comunitários por Santa Catarina.

Sua participação começa por volta do minuto 9:50, quando começa a discutir junto com a bancada do programa sobre a atual situação do financiamento nas universidades públicas, a situação da pesquisa acadêmica e científica durante a pandemia, as perspectivas de formação para pesquisadoras e cientistas no Brasil de 2020 e também as lutas populares em defesa da ciência, da educação pública e das universidades, tratando em especial da mobilização no movimento estudantil de pós-graduação.

Nós, da RPE Floripa, consideramos que é tarefa de todo o movimento popular acompanhar as mídias alternativas e também construí-las, buscando superar a monocultura cultural e informacional promovida pela mídia empresarial!

O programa pode ser acessado aqui.

Marcha pela vida nas periferias: contra os despejos e a violência policial

Em Floripa, a vida em nossas periferias têm sido muito difícil: cesta básica mais cara do país, transporte ruim, falta emprego, pouco acesso à saúde e educação, e descaso com a moradia, piorada após o Golpe de 2016, vários ataques aos direitos e cortes no orçamento por causa da EC 95 (PEC da Morte).

Ao mesmo tempo, faltando dois meses pro ano acabar, a PM já matou mais gente em 2020 do que em todo o ano passado, que já tinha sido um número absurdo. E não é qualquer um que morre: a polícia só chega atirando e executando quando é na periferia, matando principalmente negros e negras, numa política genocida e racista.

Floripa por falta de vontade dos prefeitos, é a única capital que não fez projeto e captação de recursos para a Faixa 1 do programa Minha Casa Minha Vida pra atendimento de populações vulneráveis Sem Tetos e Moradores em Situação de Rua. Gean não tem nenhum compromisso com a moradia e inclusive acabou com a Secretária de Habitação.

As elites e seus fantoches no governo – como Gean, Moisés, Bolsonaro e Guedes – com seus vereadores reacionários querem despejar e matar o povo através do projeto de lei inconstitucional, o PLC 1801/19, pra realizar despejos imediatos nas comunidades, sem defesa e autorização judicial, enquanto deixa ricos regularizarem construções irregulares, não aplicando a lei da regularização social aos vulneráveis e nem os artigos 253 e 254 do Plano Diretor, de combate aos vazios urbanos e a especulação imobiliária dos ricos.

Esta situação também é prova da total falta de vontade politica dos atuais governantes municipal, estadual e federal, em fazer cumprir a função social de prédios públicos ociosos e vazios, que bem poderiam ser reformados e servir de moradia para Sem Tetos e Moradores em Situação de Rua, que são tratados de forma desumana pelo prefeito, sem dignidade alimentar, sanitária, de alojamento e segurança cidadã, no abrigo da Nego Quirido.

Soma-se a tudo que estamos em plena pandemia, que atinge seu índice maior de contaminação, por conta do descaso com testagem em massa para ações preventivas hospitalares e sanitárias, bem como de assistência social de segurança alimentar, para garantir isolamento social e evitar a atual situação de lotação total dos respiradores e UTIs.

Para confirmar o descaso com a vida, o governo Bolsonaro tentou passar um decreto para iniciar a privatização do SUS, mas foi obrigado a recuar. Mesmo assim, continua sua política de cortar do SUS para botar no privado. Há relações imorais também, como o grupo econômico ligado ao ministro Guedes passar a ser um dos principais acionistas do Hospital Baia Sul de Floripa. Nem uma linha disso saiu na imprensa local canalha, que esconde tudo do povo.

Contra estas injustiças e maracutaias, que deixam os ricos lucrando enquanto trabalhadores sofrem e morrem, nós em defesa da vida do povo, estamos na luta e nas ruas e convidamos todas e todos para juntos mudar esta realidade, através da denúncia e mobilização, na luta por direitos, neste ano eleitoral, contra todos que negam nossos direitos básicos da vida!

EM DEFESA DA VIDA NAS PERIFERIAS:
FORA GEAN, MOISÉS, BOLSONARO E GUEDES!
NÃO AO NEOLIBERALISMO E FASCISMO!
BASTA DE VIOLÊNCIA POLICIAL!

Querem passar o trator na educação pública com as portarias 433 e 434


Anteontem, dia 23/10/2020, o governo federal instituiu duas portarias voltadas à educação superior: 433 e 434. Ambas com a mesma finalidade: “subsidiar a discussão, a elaboração e a apresentação de estratégias para ampliação da oferta dos cursos de nível superior, na modalidade EaD, nas universidades federais”. Como vimos trazendo em nossas análises sobre o ensino remoto (ER) o governo Bolsonaro tem um objetivo muito bem determinado de precarização da educação em todos os níveis, que vai resultar em mais um corte de verbas para o ano que vem no valor de R$ 1,5 bilhão (R$ 900 milhões só na educação básica).

Este desmonte da educação pública que segue acelerado desde 2015 vai além dos cortes e passa pelo avanço da modalidade EaD em detrimento dos cursos presenciais, principalmente no ensino superior. A razão de ser desse avanço é evidente: menos custos: uma vez que demanda menor contratação de docentes, que passam a dar aula para quase 200 estudantes e também de trabalhadores de limpeza, administração, segurança, manutenção e transporte. Assim gera-se um exército de reserva que permite pagar salários menores e nos arrastar em condições de trabalho acachapantes; enfraquece o movimento estudantil e sindical: com cada vez menos espaços presenciais maior é a dificuldade de nos organizarmos para enfrentar os ataques do governo; e faz acelerar a privatização por dentro de nossas universidades através das parcerias público privadas com empresas de tecnologia.

Estes três pontos já podem ser observados atualmente com o ensino remoto, que como afirmamos em notas anteriores e defendemos em nossa atuação cotidiana: serve acima de qualquer coisa como balão de ensaio para fazer avançar o EaD. O que fica evidente agora com as portarias 433 e 434. Ambas falam que é com o avanço da modalidade de educação a distância que se vai garantir a Meta 12 do PNE, ou seja: “elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% […] da população de 18 a 24 anos”. E que, portanto será uma forma de democratizar a educação.

Para nós que estamos vivendo os dramas do ER e do EaD sabemos que esta tal democratização é uma falácia de péssimo gosto, pois a modalidade aprofunda desigualdades e estudantes mais precarizados vão ficando para trás, nós que não temos ambiente adequado para estudo, possibilidade de comprar equipamentos tecnológicos e livros, que precisamos nos equilibrar entre trabalho e estudo, que temos centenas de tarefas domésticas acabamos por ver nossas condições de estudo serem rifadas com um verniz de inovação tecnológica e democratização. Não à toa é na modalidade EaD que estão as mais altas taxas de evasão.

Democratizar verdadeiramente o ensino superior é garantir condições dignas de vida e estudo para os/as estudantes, ou seja, garantir acesso e permanência às universidades públicas e gratuitas, nas quais possamos não só estudar o conteúdo referente aos nossos cursos, mas também participar da vida política do movimento estudantil para construirmos políticas de permanência estudantil, nos envolvermos em atividades culturais e desenvolvermos pesquisas e extensão que respondam as necessidades do nosso povo. À medida que estas portarias 433 e 434 são uma ameaça a estas garantias são uma ameaça à universidade e as/os estudantes mais pobres, seremos nós que mais sofreremos com este golpe.

É tarefa imediata do movimento estudantil responder a estas portarias denunciando não só o governo Bolsonaro, mas também as reitorias que serviram de pontes para pavimentação desse caminho e das organizações estudantis pelegas que atuaram como tratores. A luta terá de ser construída pelo setor combativo e decidido a enfrentar o avanço dos de cima contra nós apontando para um modelo de universidade que fortaleça o povo e garanta vida digna à nossa classe.

Convocamos todo e toda estudante a construir a luta contra o avanço neoliberal na educação conosco!

Para quem quiser ler mais sobre o tema nós da Resistência Popular construímos uma cartilha que pode ser acessada aqui.

Por uma universidade que fortaleça o povo!
Não às portarias 433 e 434!
LUTAR CONTRA O AVANÇO DO ENSINO EAD!

Um debate sobre a luta contra o ensino remoto na UFSC

No final de julho, o Conselho Universitário aprovou o ensino remoto na UFSC em um modelo que é especialmente excludente. Estimulados pela impunidade do voto, que foi secreto no primeiro dia, a maioria dos docentes atropelou as principais medidas propostas para tentar minimizar os efeitos negativos do ensino remoto para estudantes. Maioria de homens brancos que pouco sentirá o efeito de suas decisões.

Ao longo da pandemia, formulamos nossas críticas ao EAD e ao Ensino Remoto em um texto próprio, além da realização de uma live e uma cartilha, construídas junto com agrupações da Resistência Popular Estudantil de outras partes do país.

Também somamos nossos esforços nos debates e ações que buscavam combater as medidas pró-ensino remoto, denunciando o discurso elitista, privatista e sucateador daqueles que defenderam seu avanço sobre as instituições públicas, parte de um verdadeiro projeto para a educação e não apenas um uso emergencial. Assim, compartilhamos responsabilidade tanto pelas pequenas vitórias localizadas quanto pelo cenário geral de derrota frente à entrada do ensino remoto. Muito segue em andamento e em disputa dentro dos cursos, programas ou em cada sala de aula virtual, na busca por acumular críticas, objeções e alternativas para que o ensino remoto não se expanda nem permaneça. Ainda assim, cabe desde já discutir os meios pelos quais nos organizamos e lutamos nessa batalha.

Uma frente de indivíduos?

Para além de algumas entidades estudantis que já estavam resistindo às medidas, assim como esboços de campanhas estudantis puxadas por forças políticas mas que não tiveram grande impacto, a Frente pela Educação de Qualidade (FEQ) foi a iniciativa que se apresentou mais visivelmente como alternativa de luta. O espaço teve o mérito de acolher muita gente imediatamente após a sessão lamentável do CUn, dando vazão à vontade de lutar que ganhou força naquele momento, além de oferecer uma posição de recusa real ao ensino remoto, ao contrário da posição adotada na graduação pelo Conselho de Entidades de Base (CEB) e pelo DCE.

Não é segredo que o espaço é herdeiro do movimento UFSC Contra o Future-se (UCF), importante para a construção da greve estudantil do ano passado. Por isso, consideramos necessário debater publicamente algumas características que nos preocuparam naquela ocasião e que podem novamente trazer consequências negativas pro movimento estudantil.

A FEQ se constrói em reuniões onde a participação se dá como indivíduo. O que isso significa? Que, em uma reunião, cada pessoa representa a si mesma; que caso ocorra uma votação, cada indivíduo vale um voto; que as propostas e argumentos de um indivíduo possuem peso igual a de uma representação ou delegação. Assim, mesmo que alguém esteja na reunião representando todo o debate de um Centro Acadêmico ou de uma frente de base, na hora de discutir e deliberar as ações, esse acúmulo coletivo é considerado da mesma forma que a opinião individual de alguém que, sem a garantia de uma discussão prévia junto com suas colegas ou pares, apresenta o que acha que pra si é o melhor caminho. Essa é a estrutura do que chamamos aqui de uma “frente de indivíduos”, onde o coletivo é eclipsado pelas epifanias individuais.

O modelo de uma “frente de indivíduos”, como foi o UCF, desfavorece o acúmulo de forças no médio-longo prazo, dificulta o enraizamento da luta nas bases e nos deixa desarmados contra o aparelhamento. Se endossamos a participação e os votos na Frente enquanto indivíduos, retiramos os espaços de base – a comunidade estudantil de nossos cursos e programascomo local prioritário de construção e esvaziamos os espaços das entidades estudantis, nossos CAs, Diretórios e Associações, que deveriam ser disputados internamente e pressionados a vir para a luta. São as entidades que possuem a maior legitimidade para impulsionar as lutas, congregar nossos esforços e encaminhar nossas reivindicações frente aos órgãos universitários e frente a nossos adversários. Mesmo quando há a participação de estruturas de base, como alega a FEQ, a representação gira em torno da participação enraizada no individual com repasses feitos ao Centro Acadêmico, por exemplo, tornando o espaço de base dependente das decisões da frente. Não o contrário, como deveria ser, em que a base estrutura toda a decisão, apropria-se dela, e acumula a força social mesmo nos momentos de derrota.

Mais do que isso, é preocupante que o modelo individual seja incapaz de promover organização estudantil. Assim que acabou a greve de 2019, que espaço manteve viva nossa articulação, o aprendizado teórico, político e prático gerado na luta? Infelizmente, campanhas e frentes de indivíduos tendem a ter vida curta e nos levar de volta à desorganização enquanto categoria. Além do crescimento das organizações políticas, que também é importante, precisamos cultivar estruturas coletivas que resistam não só à conjuntura imediata, mas que nos deixem mais preparadas para lutas futuras, algumas das quais não chamarão tanta atenção como o Future-se ou o ensino remoto, mas que podem se provar mais tarde estruturantes para o cotidiano da categoria estudantil. As frentes de indivíduos impossibilitam que tenhamos um coletivo estudantil permanentemente articulado, atento e forte.

Contudo, mesmo a curto prazo, sem priorizar a construção nas bases dos cursos e programas, vimos que na maioria dos casos não houve capacidade de organizar greves ou boicotes contra o ensino remoto. Inclusive, sem a construção nas bases, não se conseguiu nem mesmo correlação de forças para pautar em Conselhos e Colegiados garantias mínimas para um ensino remoto menos traumático.

Por fim, o modelo das frentes de indivíduos ainda permite que um conjunto bem articulado de pessoas – como uma organização política ou um grupo de amigos – faça valer suas propostas em cima de uma maioria que esteja desorganizada ou que esteja organizada atuando nos espaços de base. Tal minoria pode dedicar todos os esforços para participar de uma mesma reunião e passar suas propostas. Em outras palavras, essa metodologia privilegia setores que não possuem referência nas bases e em suas entidades ou que apresentem disponibilidade para acompanhar múltiplas reuniões virtuais por semana durante a pandemia, outro recorte que remete às exclusões do ensino remoto. É essa falsa impressão de uma reunião mais aberta que permitia que, durante a greve de 2019, o movimento UCF tivesse um “núcleo duro” que fazia reuniões fechadas e, na prática, acordava de antemão o que seria decidido nas reuniões amplas do movimento.

Alternativas organizativas

Sabemos que nem sempre as entidades estudantis são um caminho para a mobilização. Na verdade, o mais comum é que elas estejam burocratizadas e distantes das bases; que sejam espaços onde a maioria das estudantes não se reconhece. Essa impressão costuma ser fortalecida pelo frequente aparelhamento realizado por organizações políticas que usam o espaço coletivo para ganhar legitimidade, falar em nome do conjunto das estudantes, ou apenas para sua autoconstrução.

Além disso, mesmo acreditando na organização de base e na disputa para colocar as entidades a serviço da luta coletiva, sabemos que essa alternativa nem sempre é viável imediatamente, e as lutas não podem ficar esperando essa mudança acontecer. No caso do ensino remoto, há ainda a situação das entidades que já tiraram posição favorável a ele, opinião que é inclusive majoritária em determinados cursos. 

Nesses casos, a luta pode e deve envolver a criação de outros espaços de mobilização coletiva, seja um grupo de extensão, um coletivo de oposição ao CA, um comitê local contra o ensino remoto, entre outras alternativas possíveis. Diferentes nomes para uma mesma ideia: estruturas de base que aumentem o nível de organização estudantil. Não podemos abrir mão de nos organizar localmente, nos cursos ou centros, de forma aberta à participação, para levar posições coletivas nos espaços mais amplos de articulação, seja a FEQ, uma campanha contra o ensino remoto, um comitê de entidades ou qualquer outro espaço que for criado.

Defendemos a construção de movimentos democráticos de baixo para cima, isto é, com medidas que conciliem ações de maior escala com a autonomia de cada espaço. Isso exige que esses espaços mais amplos de articulação potencializem as lutas na base, ao invés de serem espaços decisórios primários.

Além de possibilitar o enraizamento da luta em cada local, são essas estruturas de base que aumentam o nível da organização estudantil e nos deixam mais fortes para todas as batalhas que virão pela frente. São sementes de organização popular que dão bons frutos.

A luta do âmbito geral para o local

Nos órgãos deliberativos centrais, Conselho Universitário, Câmara de Graduação e Câmara de Pós-Graduação, não foi possível barrar os ataques. Não conseguimos, neste momento virtual, fazer um batucaço na porta do Conselho ou mesmo ocupar seus corredores. A falsa democracia nos órgãos é uma piada de mau gosto, seja pela enorme concentração de votos nos docentes ou pela condução da Reitoria, de forma que é muito difícil arrancar vitórias aí.

Enquanto buscava um pedido de reconsideração, que acabaria sofrendo o golpe de uma votação apressada e ilegítima conduzida pelo reitor Ubaldo, o DCE defendeu a preparação para as lutas locais em cada colegiado, mas posicionando-se a favor de disciplinas curriculares remotas, desde que com garantias para reduzir a exclusão. Por outro lado, a FEQ apontou para uma recusa genérica ao ensino remoto, organizada na UFSC, no estado ou mesmo em plenárias nacionais, mas foi incapaz de incidir nos espaços onde efetivamente está sendo decidida a adesão ao ensino remoto em cada um de nossos cursos e programas.

É importante entender o cenário muito diverso em que cada Curso, Centro ou Programa de Pós-Graduação se encontra. Os dois programas de pós-graduação strictu sensu de educação da universidade (PPGE e PPGECT), por exemplo, conseguiram barrar o ensino remoto regular em colegiado ou por maioria de votos em assembleia geral de estudantes, TAEs e docentes. Vitórias que representam o histórico de organização estudantil nos programas, mas também o acúmulo de debate crítico sobre o significado do ensino remoto – e que deveriam ser divulgadas pelo movimento estudantil como exemplo, especialmente pelo recado que enviam às redes de educação básica, onde o ensino remoto foi implementado à força e está gerando situações de grave exclusão ou precarização do trabalho. Na graduação, também há cursos desenvolvendo mobilizações expressivas pelo caminho do boicote a parte das disciplinas, como ocorre nas Ciências Biológicas.

No entanto, na maior parte dos cursos e programas, a categoria estudantil está mal organizada ou a posição favorável ao ensino remoto é muito grande. Entre determinados Centros, em especial onde há maior relação com os setores do capital interessados na EaD, a mera discussão sobre o tema é vetada e atropelada pela maioria dos docentes.

Mas, se é verdade que não conseguimos mobilizar ainda um amplo movimento contrário ao ensino remoto, cabe desde já analisar os rumos que estamos tomando, os riscos que corremos em cada tática, pensando estrategicamente no futuro: que formas de organização permitem mais aprofundamento do debate e, principalmente, acúmulo de forças? 

O ensino remoto não é um efeito colateral da pandemia do vírus, mas sim uma característica fundamental da pandemia capitalista e neoliberal na educação. Não há vacina contra ela. O tratamento contra a precarização, exclusão e descaracterização da educação pelos meios remotos será uma terapia de longo prazo. A mensuração da sua temperatura será a correlação de forças. Como sempre, é hora de organizar a luta estudantil pela base!

Uma educação para a vida digna na Grande Florianópolis

No mês de julho, as ações da Campanha de Luta por Vida Digna tiveram como pauta a educação. O que significa uma educação digna? O que é uma educação digna no contexto de pandemia? Aqui na Grande Florianópolis, fizemos essas perguntas para professoras/es que atuam em diferentes contextos de ensino.

Educação digna para transformar a vida do povo!
Educação digna para fortalecer a luta popular!

NOSSA FORÇA MOVE O MUNDO, LUTAMOS POR VIDA DIGNA!
#nalutaporvidadigna

Para que(m) serve teu conhecimento? Críticas à EaD e ao Ensino Remoto

A Resistência Popular Estudantil, articulada em diversos núcleos distribuídos pelo país, produziu uma cartilha sobre Educação a Distância (EaD) e Ensino Remoto (ER).

O tema, que está sendo especialmente debatido neste contexto de pandemia, já vem se fazendo presente há anos, como parte de um projeto de precarização e privatização da educação para atender a demandas da classe dominante. Neste contexto de restrição de contato social, lançar mão dessa modalidade de ensino como solução para os problemas educacionais é um oportunismo que acelera o desmonte das escolas/universidades e aprofunda o abismo social, sendo portanto um risco à educação pública, gratuita e de qualidade, já que ameaça este direito para a população trabalhadora e pobre.

Através das implementações de EaD e ER temos presenciado a precarização do trabalho docente, distanciando a ação pedagógica de processos educativos significativos e privando nossas crianças e jovens do contato entre si e com profissionais da educação que apresentem uma formação coerente, contrária à mera reprodução de um sistema injusto e desigual. Quando a educação é pensada pelo lucro que ela oferece e não por sua qualidade, temos um sistema pedagógico voltado para a formação de mão de obra empresarial, moldada pelos interesses do mercado. O conhecimento deve servir aos produtores e não aos patrões.

Queremos contribuir com esse debate por isso produzimos esta cartilha que discute EaD e ER em diferentes eixos, do histórico ao político, na defesa da educação pública como parte fundamental da luta por uma vida digna para a classe trabalhadora. Convidamos todas e todos a acompanharem a live de lançamento da cartilha no dia 27 de julho de 2020 às 20h na página do facebook da Resistência Popular Estudantil do Rio de Janeiro (facebook.com/rperj).

LEIA A CARTILHA AQUI: Para que(m) serve teu conhecimento? Críticas à EaD e ao Ensino Remoto

Tinta, humor e alimento: Floripa em campanha pela vida digna

Matéria produzida para o Repórter Popular em 24 de julho de 2020 pelo comitê local da Campanha de Luta por Vida Digna.

Florianópolis é conhecida internacionalmente como um belo destino de turismo por suas praias e belezas naturais. Dentro do país, sua imagem também é vendida como exemplo de desenvolvimento econômico e serviços públicos de qualidade. A verdade, no entanto, é bem mais complexa do que essa.

Por trás dos resorts de luxo na praia, uma enorme população de trabalhadoras pobres jogadas a viver em péssimas condições, nos morros ou nas dunas, pelas elites locais. Por trás da educação básica de referência, um grande histórico de luta popular e sindical que resiste às investidas constantes de privatização e sucateamento via Organizações Sociais e entidades do tipo. Nos comerciais de televisão não aparecem a luta histórica do povo pobre neste território, desde a resistência indígena contra o fundador-genocida Dias Velho, o povo negro invisibilizado que ainda se organiza nos quilombos e uma constante presença dos movimentos sociais, com destaque às dezenas de ocupações urbanas nos anos 1990 e a década de fortes lutas pelo transporte público nos anos 2000 – feixe de lutas que nos obriga a tentar olhar para além da cidade, mas para a Grande Florianópolis e suas periferias.

Panfleto do eixo de luta por renda digna colado em muro do bairro Itacorubi.

É neste território que começa a germinar mais uma semente da Campanha Nacional de Luta por Vida Digna (CLVD). Foi o chamado da luta antirracista que nos levou juntas às ruas no início de junho contra o genocídio do povo negro e fez mais nítida a necessidade de articularmos um comitê local da campanha. Assim, a campanha que já tinha adesão da Resistência Popular Estudantil, Coletivo Pintelute e Teatro Comunitário Vermelho Riu convida os contatos de mais confiança e vai crescendo nossa mudinha, uma folha de cada vez, com a parceria com o Feijovegan, o Grupo Organizado de Teatro Aguacero (GOTA) e o Coletivo Ka.

Rapidamente, nos dividimos em algumas frentes e tarefas da campanha. A partir das aptidões e também dos sonhos de cada grupo e cada militante, buscamos apontar a direção onde o solo era mais propício para avançar cada raiz.

Muralismo e comunicação popular

Se o inverno não é tempo pras ondas do mar, tem uma estação em que as notícias de luta podem ser levadas pelas ondas do rádio. Uma das primeiras ações na cidade foi do coletivo Pintelute, que atenderam ao convite da Rádio Comunitária Campeche, deram entrevista falando sobre a CLVD e pintaram um belo mural na emissora que é porta-voz do movimento comunitário. O imperativo do isolamento social impediu a realização das oficinas previstas de muralismo junto à comunidade, mas as tintas deram seu recado no muro e as ações e reivindicações da vida digna puderam ser ouvidos por moradoras, moradores e pelas trabalhadoras e trabalhadores do bairro do Campeche.

Detalhe do mural pintado junto à Rádio Comunitária Campeche.

O carro-som da campanha

Campanha, campanha, campanha! Ao povo, que não é pamonha, cabe criticar, reformar, extinguir e criar as suas próprias instituições em busca de uma vida digna. Foi mais ou menos assim que, com humor característico, as vozes e os sons do Teatro Comunitário Vermelho Riu deram vida ao carro-som da campanha. O áudio de divulgação da CLVD começou circulando nos meios mais acessados da pandemia, os grupos de whatsapp, mas o comitê local também já conseguiu um megafone popular para dar aquela volta de carro ou de bicicleta no sábado de manhã.

Ouça aqui o áudio produzido pelo Teatro Comunitário Vermelho Riu.

Frente de alimentação e abastecimento

A criação de uma frente de ação voltada para o eixo do abastecimento popular agregou mais gente em torno de atividades que já eram realizadas por dois coletivos que integram a CLVD na Grande Florianópolis, a Feijovegan e o Coletivo Ka. A coordenação e ampliação das atividades desse coletivos, comprometidos com o preparo e a distribuição de itens de necessidade básica para pessoas em situação de vulnerabilidade, vem engrossando o caldo das ações e contribuindo para seu avanço e dispersão. O desafio é grande: o diagnóstico social participativo da população em situação de rua realizado pelo Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM) e pelo Movimento da População em Situação de Rua de Santa Catarina (MNPR-SC), entre 2016 e 2017, indica que hoje mais de 500 pessoas estão sujeitas ao frio, à fome e à pandemia, apenas no município de Florianópolis (Diagnóstico Social Participativo da População em Situação de Rua da Grande Florianópolis, 2017).

Alimento saudável e solidário em produção.

Além da continuidade da atuação dos coletivos, que envolve ações semanais distribuindo dezenas ou mesmo centenas de marmitas, foi organizado um ponto de arrecadação de alimentos, agasalhos e cobertores em uma escola do Sul da ilha, onde funciona uma Célula de Consumo Responsável. Isso aumentou nossa capacidade de resposta diante da grande demanda. Através da articulação com a coordenação da célula, a campanha tem conseguido ampliar a arrecadação de alimentos orgânicos que se tornam ingredientes para as refeições distribuídas. Assim, o vínculo de apoio com a iniciativa que escoa a produção orgânica da agricultura familiar se torna mais solidariedade. Cada marmita leva o calor do alimento e do acolhimento mútuo, em um momento de troca, de escuta, onde se busca a prática e a consciência do que é necessário para uma vida digna.

Dezenas de marmitas prontas para a distribuição da semana.

Ao contrário do que vemos nas grandes mídias, é verdade que a realidade das ruas de Florianópolis continua exigindo mais do que a CLVD pode fazer atualmente. As condições ficam ainda mais dramáticas durante o inverno. Por isso, com a intenção de estender as relações de apoio mútuo de forma duradoura, durante e depois da pandemia, companheiras da frente de alimentação produziram o Manual de Abastecimento Popular. Trata-se de uma ferramenta de participação, com informações sobre como contribuir e se somar com essa rede de arrecadação, preparo e distribuição de alimentos, agasalhos, cobertores e itens de higiene pessoal.

Confira aqui o Manual de Abastecimento Popular produzido.

Mapa colaborativo

Com a marcha das ações de abastecimento, foi possível planejar um trabalho de comunicação da campanha segundo as demandas das principais ações em curso. Neste momento, um grupo de trabalho está ocupado com o desenvolvimento de uma ferramenta que sirva à facilitação da coordenação autogerida das iniciativas populares de abastecimento difusas na cidade. A ideia é que o projeto funcionará em conjunto com o Manual de Abastecimento Popular, na forma de um mapa colaborativo que possibilite a articulação de ações em curso, na direção do fortalecimento de uma rede de solidariedade alimentar!

Próximas ações

Foi um primeiro mês empolgante para a construção da campanha em nossa região. Seja nos pincéis, no fogão, na escrita, na produção audiovisual ou na articulação e comunicação de todo o grupo, todo mundo conseguiu dar a pequena contribuição que faz nosso instrumento de solidariedade e rebeldia tomar forma e ganhar vida.

Nas próximas semanas queremos avançar com novas ações, colocando nas ruas ações das frentes de luta por educação para uma vida digna, de defesa da saúde popular e de combate ao machismo e à violência contra a mulher.

A verdade é que o principal ainda resta por fazer. Lá fora reina a violência e desamor estrutural do sistema de morte em que vivemos. A pandemia da COVID-19 e a pandemia capitalista, patriarcal, racista e colonial seguem infectando nossas comunidades e desafiando nossos sonhos por uma vida digna. Somos apenas uma pequena tentativa, em uma localidade, de dar uma resposta a tudo isso. Ainda que nossas capacidades sejam pequenas, nossos braços e pernas se movem carregando os princípios do mundo novo que queremos construir. Esperamos que a Campanha possa ser uma estrada aberta, uma parte do caminho que nos leva até ele.

Doações de alimento orgânico das Células de Consumo Responsável para a produção de marmitas para a campanha.

Boletim de Junho/2020: Campanha de Luta por Vida Digna

No mês de junho, as ações da campanha incluíram a luta contra o genocídio do povo preto, pobre e periférico, com construção e participação em atos por todo o território nacional, além de ações de solidariedade, que também englobaram a questão da renda digna.

Lutar contra o racismo por vida digna!
Renda Digna pra enfrentar a pandemia e pela vida do povo!
NOSSA FORÇA MOVE O MUNDO, LUTAMOS POR VIDA DIGNA!

#nalutaporvidadigna

Se o seu coletivo, movimento ou associação quiser se somar à campanha, entre em contato com o Repórter Popular pelo WhatsApp (51 989606682), Facebook (https://www.facebook.com/reporterpop/) ou Instagram (http://www.instagram.com/reporterpopular).

Nota de repúdio à exoneração de servidores do Ministério da Saúde

Assinamos e divulgamos abaixo a nota de repúdio escrita pela Frente Catarinense de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto.

Na última semana, tivemos mais uma demonstração da política genocida e irresponsável deste desgoverno com as vidas e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

O ministro interino da saúde, Eduardo Pazuello, exonerou servidores públicos das pastas da Saúde das Mulheres e Saúde do Homem após assinarem e publicarem um parecer técnico sobre o “Acesso à saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto da pandemia da COVID-19” (Nota técnica Nº16/2020-COSMU/CGCIVI/DAPES/SAPS/M), em 1º de junho de 2020.

Em sintonia com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e com organizações não governamentais diante dos desafios para a saúde da mulher durante a pandemia, a nota recomendava orientação e o acesso a métodos contraceptivos (DIU, anticoncepcionais, pílulas de emergência etc.), a manutenção da realização de exames de prevenção ao câncer de mama e colo de útero, demonstrava preocupação com a violência contra as mulheres, a mortalidade materna e as gravidezes não planejadas, reiterando a necessidade de manutenção do atendimento aos casos de violência sexual e de aborto legal. Sugere, também, o teleatendimento como uma possível saída para esse momento de afastamento social.

O presidente Jair Bolsonaro, demonstrando seu desconhecimento da legislação brasileira, criminalizou o documento, alegando falsidade e tratando a nota como uma apologia ao aborto. Em entrevista, afirmou que a ação seria uma tentativa de ataque ao seu governo, provando mais uma vez seu autoritarismo e ignorância frente os dispositivos constitucionais.

Ao contrário do que disse o presidente, o documento chamava a atenção para a necessidade de continuidade dos serviços de saúde sexual e reprodutiva, entre eles o acesso à interrupção de gestações nos casos previstos na lei brasileira, isto é, nos casos de violação sexual, de risco de vida para a gestante ou de má formação do cérebro do bebê.

A atitude arbitrária do atual ministro interino é descabida e vai na contramão da garantia dos direitos das mulheres nesse momento, em que muitos dos serviços já estão fragilizados ou ameaçados pelo descaso da atual gestão federal.

Assim, nós, que construímos a Frente Catarinense de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto, clamamos para aquelas e aqueles que veem o desmonte dos nossos direitos, que unam-se às nossas forças pela permanência do atendimento dos serviços de saúde e atenção primária voltados para mulheres e pessoas que gestam.

Demonstramos nosso apoio às/aos servidoras/es que resistem e que atuam de forma correta apesar das ameaças destes que estão no poder.

Não nos calaremos. Não aceitaremos que ceifem nossas vidas e nossos direitos.

Pela vida das mulheres e pessoas com útero, pela saúde sexual e reprodutiva, maternidade livre e desejada e aborto legal e seguro para todas/es/os!

Frente Catarinense de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto
Frente de Doulas Ativistas
Coletiva Odoyá Doulagem
Portal Catarinas
8M SC
Associação de Doulas de SC (ADOSC)
Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro
Coletiva Mítia Bonita (Biologia -UFSC)
CoMBi-SC
Ong Movimento Mulher de Criciúma
Projeto Adinkras
Projeto Faladeiras – UFSC
Coletivo Negro de Serviço Social Magali da Silva Almeida – UFSC
Movimento Mulheres em Luta de Criciúma
8M Criciúma e região
Juventude Comunista Avançado (JCA-SC)
Coletivo Hellen Keller
Coletivo de Mulheres com Deficiência
Coletivo Alicerce
Laboratório de Estudos e Gênero e História (LEGH/UFSC)
Núcleo de Estudos e Pesquisas de Travestilidades, Transgeneridades e Transexualidades (Netrans/UFSC)
Instituto de Estudos de Gênero (UFSC)
DICITE – UFSC (Discursos da Ciência e Tecnologia na Educação)
Associação de Pós-graduandas e Pós-graduandos da UFSC
Resistência Popular Estudantil – Floripa
Coletivo Anarquista Bandeira Negra