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Tinta, humor e alimento: Floripa em campanha pela vida digna

Matéria produzida para o Repórter Popular em 24 de julho de 2020 pelo comitê local da Campanha de Luta por Vida Digna.

Florianópolis é conhecida internacionalmente como um belo destino de turismo por suas praias e belezas naturais. Dentro do país, sua imagem também é vendida como exemplo de desenvolvimento econômico e serviços públicos de qualidade. A verdade, no entanto, é bem mais complexa do que essa.

Por trás dos resorts de luxo na praia, uma enorme população de trabalhadoras pobres jogadas a viver em péssimas condições, nos morros ou nas dunas, pelas elites locais. Por trás da educação básica de referência, um grande histórico de luta popular e sindical que resiste às investidas constantes de privatização e sucateamento via Organizações Sociais e entidades do tipo. Nos comerciais de televisão não aparecem a luta histórica do povo pobre neste território, desde a resistência indígena contra o fundador-genocida Dias Velho, o povo negro invisibilizado que ainda se organiza nos quilombos e uma constante presença dos movimentos sociais, com destaque às dezenas de ocupações urbanas nos anos 1990 e a década de fortes lutas pelo transporte público nos anos 2000 – feixe de lutas que nos obriga a tentar olhar para além da cidade, mas para a Grande Florianópolis e suas periferias.

Panfleto do eixo de luta por renda digna colado em muro do bairro Itacorubi.

É neste território que começa a germinar mais uma semente da Campanha Nacional de Luta por Vida Digna (CLVD). Foi o chamado da luta antirracista que nos levou juntas às ruas no início de junho contra o genocídio do povo negro e fez mais nítida a necessidade de articularmos um comitê local da campanha. Assim, a campanha que já tinha adesão da Resistência Popular Estudantil, Coletivo Pintelute e Teatro Comunitário Vermelho Riu convida os contatos de mais confiança e vai crescendo nossa mudinha, uma folha de cada vez, com a parceria com o Feijovegan, o Grupo Organizado de Teatro Aguacero (GOTA) e o Coletivo Ka.

Rapidamente, nos dividimos em algumas frentes e tarefas da campanha. A partir das aptidões e também dos sonhos de cada grupo e cada militante, buscamos apontar a direção onde o solo era mais propício para avançar cada raiz.

Muralismo e comunicação popular

Se o inverno não é tempo pras ondas do mar, tem uma estação em que as notícias de luta podem ser levadas pelas ondas do rádio. Uma das primeiras ações na cidade foi do coletivo Pintelute, que atenderam ao convite da Rádio Comunitária Campeche, deram entrevista falando sobre a CLVD e pintaram um belo mural na emissora que é porta-voz do movimento comunitário. O imperativo do isolamento social impediu a realização das oficinas previstas de muralismo junto à comunidade, mas as tintas deram seu recado no muro e as ações e reivindicações da vida digna puderam ser ouvidos por moradoras, moradores e pelas trabalhadoras e trabalhadores do bairro do Campeche.

Detalhe do mural pintado junto à Rádio Comunitária Campeche.

O carro-som da campanha

Campanha, campanha, campanha! Ao povo, que não é pamonha, cabe criticar, reformar, extinguir e criar as suas próprias instituições em busca de uma vida digna. Foi mais ou menos assim que, com humor característico, as vozes e os sons do Teatro Comunitário Vermelho Riu deram vida ao carro-som da campanha. O áudio de divulgação da CLVD começou circulando nos meios mais acessados da pandemia, os grupos de whatsapp, mas o comitê local também já conseguiu um megafone popular para dar aquela volta de carro ou de bicicleta no sábado de manhã.

Ouça aqui o áudio produzido pelo Teatro Comunitário Vermelho Riu.

Frente de alimentação e abastecimento

A criação de uma frente de ação voltada para o eixo do abastecimento popular agregou mais gente em torno de atividades que já eram realizadas por dois coletivos que integram a CLVD na Grande Florianópolis, a Feijovegan e o Coletivo Ka. A coordenação e ampliação das atividades desse coletivos, comprometidos com o preparo e a distribuição de itens de necessidade básica para pessoas em situação de vulnerabilidade, vem engrossando o caldo das ações e contribuindo para seu avanço e dispersão. O desafio é grande: o diagnóstico social participativo da população em situação de rua realizado pelo Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM) e pelo Movimento da População em Situação de Rua de Santa Catarina (MNPR-SC), entre 2016 e 2017, indica que hoje mais de 500 pessoas estão sujeitas ao frio, à fome e à pandemia, apenas no município de Florianópolis (Diagnóstico Social Participativo da População em Situação de Rua da Grande Florianópolis, 2017).

Alimento saudável e solidário em produção.

Além da continuidade da atuação dos coletivos, que envolve ações semanais distribuindo dezenas ou mesmo centenas de marmitas, foi organizado um ponto de arrecadação de alimentos, agasalhos e cobertores em uma escola do Sul da ilha, onde funciona uma Célula de Consumo Responsável. Isso aumentou nossa capacidade de resposta diante da grande demanda. Através da articulação com a coordenação da célula, a campanha tem conseguido ampliar a arrecadação de alimentos orgânicos que se tornam ingredientes para as refeições distribuídas. Assim, o vínculo de apoio com a iniciativa que escoa a produção orgânica da agricultura familiar se torna mais solidariedade. Cada marmita leva o calor do alimento e do acolhimento mútuo, em um momento de troca, de escuta, onde se busca a prática e a consciência do que é necessário para uma vida digna.

Dezenas de marmitas prontas para a distribuição da semana.

Ao contrário do que vemos nas grandes mídias, é verdade que a realidade das ruas de Florianópolis continua exigindo mais do que a CLVD pode fazer atualmente. As condições ficam ainda mais dramáticas durante o inverno. Por isso, com a intenção de estender as relações de apoio mútuo de forma duradoura, durante e depois da pandemia, companheiras da frente de alimentação produziram o Manual de Abastecimento Popular. Trata-se de uma ferramenta de participação, com informações sobre como contribuir e se somar com essa rede de arrecadação, preparo e distribuição de alimentos, agasalhos, cobertores e itens de higiene pessoal.

Confira aqui o Manual de Abastecimento Popular produzido.

Mapa colaborativo

Com a marcha das ações de abastecimento, foi possível planejar um trabalho de comunicação da campanha segundo as demandas das principais ações em curso. Neste momento, um grupo de trabalho está ocupado com o desenvolvimento de uma ferramenta que sirva à facilitação da coordenação autogerida das iniciativas populares de abastecimento difusas na cidade. A ideia é que o projeto funcionará em conjunto com o Manual de Abastecimento Popular, na forma de um mapa colaborativo que possibilite a articulação de ações em curso, na direção do fortalecimento de uma rede de solidariedade alimentar!

Próximas ações

Foi um primeiro mês empolgante para a construção da campanha em nossa região. Seja nos pincéis, no fogão, na escrita, na produção audiovisual ou na articulação e comunicação de todo o grupo, todo mundo conseguiu dar a pequena contribuição que faz nosso instrumento de solidariedade e rebeldia tomar forma e ganhar vida.

Nas próximas semanas queremos avançar com novas ações, colocando nas ruas ações das frentes de luta por educação para uma vida digna, de defesa da saúde popular e de combate ao machismo e à violência contra a mulher.

A verdade é que o principal ainda resta por fazer. Lá fora reina a violência e desamor estrutural do sistema de morte em que vivemos. A pandemia da COVID-19 e a pandemia capitalista, patriarcal, racista e colonial seguem infectando nossas comunidades e desafiando nossos sonhos por uma vida digna. Somos apenas uma pequena tentativa, em uma localidade, de dar uma resposta a tudo isso. Ainda que nossas capacidades sejam pequenas, nossos braços e pernas se movem carregando os princípios do mundo novo que queremos construir. Esperamos que a Campanha possa ser uma estrada aberta, uma parte do caminho que nos leva até ele.

Doações de alimento orgânico das Células de Consumo Responsável para a produção de marmitas para a campanha.

Acompanhar também é lutar!

Não era novidade para ninguém que nos submetermos à um isolamento social traria consequências psicológicas para todos. Nas primeiras semanas de quarentena já era possível ver posts na internet de tom jocoso que sugeriam que no décimo dia de quarentena já estaríamos fora de nós mesmos. Tudo isso não é por o acaso; nascidos em uma sociedade em que somos serventes do mercado, portanto, da produção constante, a sensação de estarmos presos em casa, sozinhos, ou mesmo com outras (poucas) pessoas (família, amigos, companheiros), até nossos hobbies se tornam motivos de auto cobrança, pois não estamos fazendo “nada”, sem poder viver nossa vida ordinária, ou momentos de lazer com colegas – o que já parecia motivo de alarme para grande parte da população.

Imagine então uma situação piorada, que é a que a camada popular brasileira se encontra atualmente, em que não só perdemos as atividades e tarefas no exterior de nossas casas, mas estamos a beira de um colapso, com o aumento do desemprego, trabalhadores tendo que furar a quarentena para garantir seu sustento, estudantes sem o amparo devido da universidade – em sua maioria sendo obrigados a fazer atividades avaliativas à distância mesmo sem acesso à internet ou com problemas de saúde na família, com um presidente e governadores que ao invés de diminuir a perda de vidas preferem diminuir a perda de lucro das empresas, com os preços do mercado aumentando já que existe alta procura e baixa produção – e o preço tem que subir para conservar o lucro (mais uma vez o lucro à frente da vida), com moradores sem informação de como se prevenir – utilizando mascará, álcool em gel e papel higiênico (?) de forma indevida, com uma parte dos cidadãos se baseando em calúnias e notícias falsas sobre o corona vírus, e a eterna sensação de olhar pela janela sem saber quando ou, até mesmo, se as coisas voltarão à ser como antes. Sem contar outras situações mais precárias, como por exemplo; pessoas que nem onde morar tem para poder realizar a quarentena. E ai, como fica o Brasil?

Antes de todo esse caos nos atormentar, quantos de nós já não tínhamos sofrido, ou já sofríamos de ansiedade e depressão?! Podemos dizer que o século XXI é o século em que estes transtornos crescem a cada segundo. Junto com esse fator, vemos crescer também a patologização da vida, que comprime os problemas sociais, coletivos e do Estado ao indivíduo; como dizer que o que estamos vivenciando em relação à pandemia, desde o contágio do COVID-19, até os problemas de saúde mental se potencializando, não se refere também, até certa perspectiva, à essa crise social que estamos vivenciando, isentando o aspecto político dessa abordagem.

Não podemos perder de vista todos esses apontamentos e principalmente ter a compreensão de que companheiros e companheiras que estão na luta também estão aptos de sofrer e ter crises psicológicas por conta da conjuntura atual e problemas pessoais, desde de sua vida privada, tendo que suportar a quarentena (que como já dito, para a camada popular a vida em isolamento social adquire outro caráter), até aqueles que não tem condições de se manter em isolados por conta de emprego (dobrando os riscos de contágio e o desespero em torno de toda essa calamidade).

Por isso ressaltamos a importância de construirmos redes de apoio mútuo e solidariedade entre nós, desde grupos para realizar atividades de lazer à distancia para ajudar os companheiros e companheiras à se recompor, até redes para arrecadar alimento e utensílios básicos a aqueles que não estão conseguindo se manter financeiramente. Precisamos urgentemente estar ao lado dos explorados, acompanhando-os e auxíliando-os à levantar e permanecer em luta.

SOLIDARIEDADE E APOIO MÚTUO NO ENFRENTAMENTO DA PANDEMIA!

Resistência Popular Estudantil – Floripa
Resistência Popular Estudantil – Marília
Resistência Popular Estudantil – RJ

Nota de solidariedade do XIII ELAOPA ao povo Ka’apor da Amazônia Oriental

Março de 2019 – Viamão-RS-Brasil

O Encontro Latino Americano de Organizações Populares Autônomas (ELAOPA) propõe solidariedade aos Povos Indígenas Ka’apor da Amazônia Oriental do Noroeste Maranhense do Brasil na luta pela recuperação e defesa do seu território contra a intensa ação ofensiva de madeireiras extrativistas e diante da repressão do Estado Policial de Ajuste sobre as lideranças desse povo.

O Povo Ka’apor da Terra Indígena Alto Turiaçu se mantém na defesa de seu território de modo autônomo contra a expansão madeireira, ruralista e do agronegócio e exige respeito nas suas formas próprias de fazer a gestão de sua vida e da floresta. Das suas origens até hoje enfrentam batalhas com não-indígenas e agentes do Estado para a manutenção de seu território preservado e protegido e sofrem com o racismo institucionalizado de órgãos do governo federal e estadual, com o ataque de capangas de madereiras e com a repressão policial, culminando nos últimos três anos com morte, ameaças, intimidações e criminalização de lideranças.

Nos últimos anos o Estado desenvolveu sérios ataques criminalizando suas lideranças no sentido de desqualificar, descredenciar e deslegitimar o Conselho de GestÃo Ka’apor, situação que tende a se intensificar a partir deste ano de 2019 com o projeto político do Governo Bolsonaro de extermínio dos povos indígenas através da não-demarcação do seu território e do sucateamento de modestas políticas públicas presentes em anos passados.

Propomos solidariedade em defesa do Conselho de Gestão Ka’apor à luta pelo bem-viver e pela proteção e soberania do seu território autônomo e pela investigação do assassinato de Eusébio Ka’apor por pessoas ligadas a madeireiros envolvidos com a exploração ilegal de madeira no interior da Terra Indígena Alto Turiaçu. Pedimos a difusão e o compartilhamento desta nota de solidariedade por organizações e por movimentos sociais presentes em seus países e regiões e origem.

PELA DEFESA DO TERRITÓRIO DO POVO KA’APOR!

PELO BEM-VIVER E PELA PROTEÇÃO E SOBERANIA DOS TERRITÓRIOS DOS POVOS INDÍGENAS DA AMÉRICA LATINA!

SE SENTE, SE ESCUTA, AVANTE AS E OS QUE LUTAM!