Tag Archives: RP

RP COMENTA: “Pandemia reduz submissões de artigos acadêmicos assinados por mulheres” (Revista Dados) 

 

Leia a notícia: http://dados.iesp.uerj.br/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres/

Segundo a revista acadêmica de ciências sociais Dados, o número de mulheres que submeteu artigos para a revista no segundo trimestre de 2020 é o menor desde 2016. Quando se considera textos com a primeira autora mulher, a revista afirma que embora a média desses manuscritos entre 2016 e o primeiro trimestre de 2020 tenha sido de 37%, esse patamar caiu para 13% neste trimestre.

A própria revista alerta que “esses dados são preliminares e demandam cautela analítica”, por se tratar de período inconcluso e envolver apenas uma revista. No entanto, é importante salientar como ela parece ser mais um dado num padrão de aprofundamento das desigualdades de gênero a partir da crise social provocada pela pandemia de Covid-19. Como apontamos em nossa série de textos, a crítica quanto à EaD se deve em parte à preocupação semelhante acerca dos efeitos distintos que sua implementação tem quanto a vários recortes sociais, o de gênero não sendo menos importante.

Como nossas companheiras da Resistência Popular Estudantil – RJ apontaram recentemente, “vivemos numa sociedade na qual o patriarcado é sustentado estruturalmente, fomentando a opressão de gênero e o machismo, ou seja, ser mulher é um grande desafio”. Nossa luta dentro nas estruturas acadêmicas e científicas passa por denunciar justamente as estruturas que, de maneira insidiosa e sutil, acumulam-se em distorções e injustiças ao longo do tempo.

RP COMENTA: “Laureate usa robôs no lugar de professores sem que alunos saibam” (Agência Pública)

Leia a notícia: https://apublica.org/2020/04/laureate-usa-robos-no-lugar-de-professores-sem-que-alunos-saibam/

Segundo denúncias obtidas pela Agência Pública, a rede de instituições de educação a distância (EaD) Laureate está usando um programa de computador (LTI) para corrigir atividades dissertativas de suas estudantes. Dirigentes proibiam que estudantes fossem informadas de que isso estava acontecendo – e não é difícil entender por quê: cheias de problemas, as correções automáticas não são capazes de refletir o real desempenho estudantil, e inclusive deixam passar plágios.

Esta notícia é um exemplo perfeito do que discutimos em nossas recentes análises sobre a EaD na pandemia: tecnologias como esta subvertem completamente o real significado da educação, privando as estudantes de um desenvolvimento mais adequado da relação com professoras no momento avaliativo. Além disso, prejudica também a perspectiva da classe trabalhadora docente, pois com o tempo o sistema será certamente “aperfeiçoado” para que engane as estudantes o suficiente para não gerar reclamações (não importando o que tenham aprendido, ou que tipo de profissionais e seres humanos serão). Absolutamente NINGUÉM ganha com isso, exceto os acionistas da empresa, que amplia seu poder no âmbito dos conglomerados educacionais privados. O fato de a medida ter sido escondida e aplicada em tempos de pandemia torna este projeto ainda mais cruel.

Como apontamos em nossa série de textos, é preciso ser crítico quanto à maneira como as tecnologias são apresentadas como soluções miraculosas, especialmente em tempos de crise. Através da naturalização da EaD e de nosso engajamento acrítico com ela, aprendemos que “educação” significa receber um depósito de conteúdo pronto isoladamente em nossas casas, gerenciando nossos próprios problemas de aprendizado usando ferramentas monopolizadas por empresas, sem buscar alternativas para a promoção de igualdade e solidariedade nesse processo. Isso não é educação a distância, mas tão somente distância: ficamos cada vez mais longes do mundo que deveríamos estar construindo no rastro de destruição que a pandemia deixa no tecido social.

Que os ricos paguem pela pandemia!

Vemos se difundir pela televisão, internet e redes sociais a narrativa de que o Corona Vírus é o causador da crise na qual seguimos afundando. Tal narrativa, impulsionada pela grande mídia e governantes, busca esconder o cheiro de podre vindo do cadáver do atual modelo econômico. A necessidade permanente de crescimento e expansão (Lucrar, lucrar, lucrar…) do capitalismo e sua tendência à financerização são as verdadeiras causas do cenário de crise, e possível recessão, que é agravado e intensificado pela pandemia. Buscando expandir seus lucros para além da produção de mercadorias, sem correr os riscos diretos (compra de maquinário; matéria prima; custo com a força de trabalho), e se desenvolvendo proporcionalmente mais na esfera financeira, o grande capital especula em cima de um dinheiro que ainda não existe, e que pode vir a ser parte do lucro das empresas direcionado aos acionistas. Na medida em que mais e mais capitalistas preferem apostar no mercado financeiro, mais a produção industrial – produção de riqueza real, bem como geração de emprego – se enfraquece. Em 2019 a produção global enfraqueceu, pois o consumo enfraqueceu, logo o valor realizado, o rendimento dos dividendos, se distanciou do valor prometido. Assim bolhas explodem. Os grandes rentistas logo fogem para um investimento seguro, normalmente os títulos da dívida pública, principalmente norte-americana, ocorrendo assim a chamada “fuga de capitais”. Mas não nos deixemos enganar achando que esse processo alivie a pressão em torno de nossa dívida pública, pelo contrário, segue sugando mais da metade do nosso PIB, que vai parar no bolso de grande banqueiros.

Os recentes ataques aos direitos da classe trabalhadora contribuem para o cenário de caos social intensificado pela pandemia (que tende a se agravar nas próximas semanas). A reforma trabalhista, aprovada em 2017, acirrou a situação de vulnerabilidade socioeconômica das/os trabalhadoras/os, o que se torna evidente quando o direito a quarentena é negado aos trabalhadores informais, os quais, sem nenhuma garantia de renda, continuam a trabalhar. Enquanto isso, aos trabalhadores formais são impostas “férias antecipadas” ou demissões voluntárias. Ou seja, somos nós trabalhadores que estamos pagando pela pandemia. Além disso, o congelamento dos gastos públicos na área da saúde e educação promovidos pela EC 95 precarizou e sucateou nosso sistema de saúde público, que se mostra tão essencial em tempos de pandemia. Além dessas, a recém aprovada reforma da previdência obriga as/os trabalhadoras/es a pagar a conta das divídas de grandes sonegadores (bancos e grandes empresas que tem uma dívida bilionária à previdência e nunca a pagam devido às negociações e perdões fiscais) e condena o povo a trabalhar, quase que literalmente, até morte. Por mais que ainda estejamos sentindo as medidas dessa reforma em sua forma inicial, fica evidente que, em casos de crise como a que vivemos hoje, os trabalhadores mais velhos serão um dos grupos mais afetados, o que se agravará com o empobrecimento imposto pela reforma.

Bolsonaro, através de pronunciamentos esdrúxulos e genocidas, reflete o posicionamento da classe dominante: “o Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes” (Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero). Um estudo realizado pelo Dieese revela que um salário suficiente para pagar pelos produtos definidos pelo governo federal para uma cesta básica, seria de R$4.366,51, enquanto cerca de 60% de brasileiros vivem com cerca de R$928 reais por mês. 41,3% dos trabalhadores brasileiros são informais, segundo IBGE. Estes são camelôs, ubers, trabalhadoras domésticas sem carteira, etc, ou seja, pessoas sem FGTS, sem seguro desemprego, sem licença médica remunerada e sem fonte de renda que não venha da venda de sua mão de obra. O total desprezo pela vida dos trabalhadores é intensificado em períodos de crise e recessão econômica, mas é necessário frisar que a política de precarização e negação de uma vida digna já estava em curso com as medidas já mencionadas, as reformas e EMC 95. Devido a tal emenda o SUS já perdeu R$ 20 bilhoes desde 2016, e ainda terá um prejuízo de até 400 bilhões de reais até 2036. A medida anunciada no dia 18/03 por Guedes de 200 reais mensais para os trabalhadores informais durante o período da pandemia chega a ser um insulto. O valor irrisório junto as restrições ao acesso ao auxílio escancaram a frieza e indiferença dos gestores do capital quanto a vida do povo, nos jogando a uma situação de fome e miséria. A austeridade e o ajuste fiscal não veem barreiras, e o Estado policial recordista em matar no campo, do país recordista em matar transexuais, assim como o genocidio brasileiro dos povos da floresta, de negros e favelados e o feminicidio que ceifou 1314 vidas em 2019, ganha agora um incremento.

Somos nós os produtores, ou seja, sem nossa força de trabalho, não há transporte, de pessoas ou de alimento/mercadorias, não há venda; cobrança; pesquisa; não há indústria; internet; luz e energia. E como o que produzimos nos é furtado, são aqueles que nos furtam os preocupados com a queda da produção. Então porque somos nós quem devemos pagar com essa conta? O cenário é realmente impactante e devemos cobrar para que seja levado com seriedade, tanto pelos engravatados quanto por nossos companheiros de classe. Deve ser ressaltado sempre que nada existe sem nós trabalhadores, e que nada esperamos do Estado, porque a nós nada nunca foi dado e sempre conquistado. O momento é de ainda mais solidariedade e organização entre os nossos, não só para enfrentarmos o COVID19, mas também para cobrarmos cada gota de sangue de nossa classe derramada para o enriquecimento desses assassinos. E os ricos pagarão! Pagarão com suas cabeças e com as nossas riquezas que são usurpadas por eles, porque mais fortes são os poderes do povo!

Assinam:
Resistência Popular Estudantil – RJ
Resistência Popular Estudantil – Araraquara
Resistência Popular Estudantil – Marília
Resistência Popular Estudantil – Floripa
Resistência Popular Estudantil – RS
Resistência Popular Estudantil – Paraná

As mulheres trabalhadoras sentem na pele cada dia mais os ataques que o governo dispara em sua direção

Desde a colonização aos dias atuais lutamos pela nossa dignidade, que é constantemente violada pelo patriarcado e racismo arraigados no país. Atualmente, o governo Bolsonaro vem com seus ideais neoliberais aprofundar a miséria do povo e enriquecer cada vez mais as elites às custas de nossa dignidade.

Esse processo não começa do nada: é resultado de anos de conciliação de classes, que nos jogou migalhas enquanto enchia os bolsos dos grandes empresários, banqueiros e latifundiários, gerando imobilismo das grandes centrais sindicais, fortalecendo as elites e preparando o terreno para que o neoliberalismo descarado enfie, sem pudores, suas garras afiadas cada vez mais fundo em nossas vidas. O sustento das/os de cima é promovido através da exploração da/os de baixo, e essa realidade assola a América Latina de modo geral, produzindo a desigualdade combinada também à herança colonial.

Nos últimos anos as reformas Trabalhista e da Previdência aumentaram a exploração dos corpos das mulheres, cujo tempo de trabalho já é no mínimo dobrado em relação aos homens, além de ter que resistir às violências de gênero em casa .

A nossa rotina é custosa em todos aspectos. Sabemos que o Brasil é um dos principais países do mundo com casos de feminicídios, fora as várias violências de assédio sexual por que passamos. Nós resistimos contra os ataques de gênero, raça e classe porque vemos outras mulheres de nossa família ou do convívio social que nos fortalecem e nos motivam a marchar em direção à vida sempre mais justa de se viver.

Fazemos menção aqui a Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018 denunciando os abusos da polícia militar e lutando pela dignidade da mulher negra frente ao Estado opressor e assassino.

Aliado à lógica neoliberal, o avanço do conservadorismo também nos ataca, favorecendo ainda mais o pensamento misógino e sexista. O debate do aborto não é entendido como um tema de saúde pública, e muitas mulheres seguem morrendo na necessidade de se submeter à abortos clandestinos.

Não bastasse o aumento do custo de vida desmoronando sobre nós – com aumento do preço dos alimentos, produtos para higiene, gás, aluguel e das contas de luz e água – vemos o descaso com as nossas necessidades e urgências enquanto mulheres estudantes e/ou trabalhadoras que diariamente resistem à todas as formas de opressões.

O neoliberalismo intensifica também o desmonte dos serviços públicos, como creches, saúde e educação. Não termos acesso à uma educação pública de qualidade também contribui para que tenhamos que nos submeter aos serviços mais precarizados.

Já no ensino básico é possível perceber, pela existência de renomadas escolas particulares que garantem o sucesso no vestibular, que o ensino superior é feito para os filhos de quem no mínimo pode pagar uma educação privada.

Dentro da universidade temos mais problemas: a falta de permanência estudantil. Aqueles poucos que conseguiram quebrar a barreira de sua situação financeira para ocupar espaço em uma universidade pública sendo da camada popular, tem sua existência ameaçada no curso, pois não tem os subsídios necessários para se manter sem auxílio da instituição.

Tudo isso é parte de um projeto anti-povo, que incorpora as dominações sociais para o espaço universitário, impedindo que a produção de conhecimento seja feita pelos dominados, conservando assim que essa produção continue sendo realizada através da perspectiva dos dominadores

Para a compreensão daquilo que diz respeito à hierarquia universitária podemos abordar a presença de um setor marginal presente nesse contexto. Anos antes das cotas sociais e raciais serem implementadas ou até mesmo conquistadas, mulheres pobres e mulheres negras existentes na universidade, em sua maioria, eram faxineiras e servidoras e terceirizadas. Com um avanço dessa luta já é possível dizer que estamos em um outro cenário sobre essa situação, mas que ainda não é suficiente. Um exemplo é que é possível contar nos dedos as mulheres transexuais estudam na sua faculdade, se houver.

Mesmo com a entrada de mulheres periféricas na universidade a estrutura ortodoxa e elitizada do ensino superior continua a mesma, de modo que o espaço dessas pessoas na produção de conhecimento ainda precisa ser duramente disputado, pois para uma educação branca, patriarcal e elitista não há lugar para filhas de faxineiras, costureiras e trabalhadoras urbanas e rurais, donas de casa, mães solo, mulheres transgênero, travestis e transexuais, negras e indígenas.

Pensar em uma universidade feita por e para o povo, com acesso irrestrito da camada popular e que fortaleça os de baixo, é pensar em uma universidade que pretende romper com as relações de dominação presentes nos círculos acadêmico, administrativo e social da educação superior, assim como quer romper com essas relações na sociedade. A mulher só viverá dignamente na universidade quando a luta por moradia, permanência estudantil e pelo fim do vestibular estiver em dia, e a capacidade de mulheres periféricas produzirem conhecimento for cada vez mais for posta em prática.

Para isso é necessário construir esse processo de organização política incorporando as questões e pautas dos setores marginalizados.

Portanto, entendemos que é importante erguemos nossos punhos nesse 8 de março para lutarmos contra o avanço do neoliberalismo e reivindicarmos uma vida mais justa para nós, que só é possível através da força coletiva e popular e da democracia direta.

É nós por nós!

MULHER É RESISTÊNCIA NA LUTA POR VIDA DIGNA!

Assinam essa nota:

Resistência Popular Estudantil – RJ

Resistência Popular Estudantil – Marília

Resistência Popular – Fronteira Sul

Resistência Popular Estudantil – Porto Alegre

Resistência Popular Estudantil – Floripa

Resistência Popular Estudantil 28 de Março – Araraquara

Organizar para resistir, aquilombar para avançar!

Nossa geração de militantes enfrenta a mais dura conjuntura de nossas vidas. O avanço do imperialismo tem nos empurrado para subempregos ou mesmo para o desemprego. Quem não conhece um amigo ou uma amiga que esta sobrevivendo de bico, Uber, Rappi ou que não consegue sair da casa dos pais por não encontrar trabalho? Quantos de nós não estamos nessa condição?

A ausência de direitos trabalhistas, a flexibilização nos horários, a inexistência de seguridade são a norma da história da nossa classe, principalmente para os trabalhadores pretos e enquanto o trabalho cai os preços só sobem. Não bastasse isso, o governo corta da educação, da saúde, do saneamento, para pagar a imoral divida pública e bancar o nosso genocídio, esse ano já foram 6 crianças assassinadas pelo Estado brasileiro, 2900 vítimas ao todo só no primeiro semestre e aparecem relatos de tortura aos montes. A maioria esmagadora dos casos chacinando a juventude preta. Fica evidente que o racismo se estrutura no capital pra superexplorar os trabalhadores pretos e as trabalhadoras pretas. .

A barbárie se aprofunda, os de cima querem nos tirar o suor, o pão e o sangue. Portanto só temos uma alternativa: nos organizar pra resistir e a quilombar pra avançar!!

Enquanto polo dos oprimidos e oprimidas é necessário nos organizarmos, tomando autogestão, solidariedade de classe, combatividade, democracia direta, internacionalismo, antirracismo como princípios, devemos unir as lutas tomando o processo de a quilombagem como referência.

Os quilombos, sociedades livres de ex-escravos, pretos nascidos livres, indígenas, trabalhadores brancos pobres, prostitutas e qualquer um que estivesse disposto a combater por liberdade; proliferaram pelo Brasil defendendo a propriedade coletiva, a tomada de decisão ampla e participativa, a construção de um polo de poder dos de baixo para enfrentar os de cima sem conciliação. Sua organização e luta arrancaram o fim da escravidão, não a bondade de uma princesa. Atualmente seguem nas trincheiras da luta para conseguirem o reconhecimento de sua cultura e organização social, bem como de seus territórios. A especulação imobiliária e a ação de latifundiários e pistoleiros continuam a invadir quilombos, perseguindo, encarcerando e matando lideranças; assim como faziam os capitães do mato. No mesmo sentido, são raras as ocasiões em que o poder público reconhece a relação cultural e harmoniosa entre os quilombolas e o meio que vivem quando da delimitação de reservas naturais. Desse modo, aqueles que viveram por séculos em determinada relação com o ecossistema que os cercam, passam a ser proibidos de seguir com seus costumes, considerados pelo Estado como predatórios e ilegais. O Estado racista que mata e tortura a população preta nas periferias das grandes cidades é o mesmo que legitima os ataques do capital aos quilombos brasileiros.

Nas universidades, a luta preta tem avançado com a conquista das ações afirmativas, arrancada pela luta e não como um presente de nenhum governo. Na última década, houve uma grande transformação no perfil da estudante universitária. Mas, embora tenhamos caminhado no horizonte de pintar a universidade de povo, a verdade é que o principal ainda está por ser feito. A maior parte de nossa juventude pobre e preta continua mantida afastada deste espaço pelo filtro de classe e racial que é o vestibular. Além disso, as políticas de permanência sempre foram insuficientes e estão cada vez mais ameaçadas, fazendo com que muitas de nós sejamos expulsas pela porta dos fundos, sem meios para nos sustentar na universidade. Na pós-graduação, a luta pelas ações afirmativas ainda dá seus primeiros passos, mas tem real potencial para avançar no próximo período. Entre a categoria docente, de maior poder institucional dentro das universidades, sabemos que o povo preto e indígena ainda encontrou poucos espaços. É essa presença e luta, preta e indígena, que dá margem para avançarmos mais na disputa do sentido da universidade pública, seja nos currículos, nas aulas, nas pesquisas, na extensão popular.

Que sigamos o exemplo do provo preto e combatamos sem conciliação, organizados entre os nossos. Até fazer cair cada governo que nos ataque, que chacine nossas crianças e queira que trabalhemos até morrer. Se vivemos a conjuntura mais dura de nossa geração, que combatamos de forma dura até obtermos as vitórias para a nossa classe!

Viva Zumbi! Viva Dandara!
Só o povo salva o povo!
Lutar, criar, poder popular!

Assinam essa nota:

Resistência Popular Estudantil – Floripa
Resistência Popular Estudantil – Marília
Resistência Popular Estudantil – Porto Alegre
Resistência Popular Estudantil – Rio de Janeiro

Repórter Popular | Estudantes em greve se somam à comunidade do Mocotó na luta contra a violência policial, em Florianópolis (SC)

Notícia publicada no portal Repórter Popular.

Na última terça (24), cerca de 100 estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) se mobilizaram para participar junto à comunidade do Morro do Mocotó deum ato contra a violência policial na comunidade.O ato surge como uma resposta a vários episódios de ataques policiais à comunidade, em particular uma ação realizada no dia 12 de setembro, quando duas pessoas foram baleadas e tiros de bala de borracha foram disparados contra crianças e uma mulher grávida.

Em março deste ano, o Mocotó já havia fechado com uma barricada o trânsito na rua Silva Jardim, em frente à comunidade. Naquele momento, já denunciavam o aumento das mortes causadas pela Polícia Militar e o toque de recolher imposto à comunidade. Desde agosto de 2018, há uma base policial instalada no alto do morro, entre o Morro do Mocotó e o Morro da Queimada.

A manifestação foi incluída no calendário da greve de estudantes de graduação e pós-graduação da UFSC, que iniciou no início do mês de setembro.

Ato é resposta a vários episódios de ataques policiais à comunidade | Foto: Reprodução

As reivindicações da greve envolvem a liberação da verba contingenciada pelo Governo Federal, a reposição do Orçamento previsto para 2020, a restituição das bolsas de pesquisa cortadas ao longo de 2019 e o arquivamento do Programa Future-se.No dia 4 de setembro, o Conselho Universitário da UFSC se posicionou contrário ao Future-se, decisão adotada pela maioria das federais no país. Ainda assim, estudantes seguem em luta contra as demissões realizadas de trabalhadores terceirizados e as ameaças de cortes nas bolsas e políticas de assistência, medidas anunciadas caso não haja restituição das verbas.

Além da participação de estudantes grevistas, o ato também contou com o apoio de militantes das ocupações urbanas e de direitos humanos da cidade.

Após o trancamento da via em frente à comunidade por cerca de uma hora, moradores relataram que a realização do ato poderia desencadear uma retaliação violenta da polícia e que o apoio de estudantes e parceiros da comunidade seria fundamental.

A manifestação decidiu, então, subir o morro como um gesto simbólico de compromisso e apoio aos moradores, muitos dos quais não haviam se somado por receio da Polícia Militar, que esteve presente durante todo o ato.

Policiais portando armas letais, sem identificação e com os rostos mascarados estiveram no ato | Foto: Reprodução

Ao chegar no alto da comunidade, a manifestação se deparou com diversas viaturas policiais, incluindo policiais portando armas letais, sem identificação e com os rostos mascarados. Uma negociação buscou chegar a um compromisso de identificação dos policiais e de que não haveria retaliação policial à comunidade, porém sem sucesso.Apenas após cerca de duas horas, em que manifestantes e a comunidade ficaram em vigília em frente ao posto policial, foi possível negociar um acordo de saída, com a presença de advogadas populares e do vereador Lino Peres (PT).

Pelo fim da violência, em defesa de serviços públicos e direitos sociais

Além da denúncia da violência policial, a tônica da manifestação foi a reivindicação de mais serviços públicos e direitos sociais na comunidade, através de creches, escolas, saúde, assistência social, moradia e promoção da cultura.

Na fala dos moradores e organizadores do ato, a presença do Estado na comunidade está quase restrita às forças repressivas, enquanto as verdadeiras soluções para as dificuldades vividas pela comunidade se encontram na garantia de todos esses direitos negados, não apenas no Morro do Mocotó, mas em todas as comunidades de periferia da Grande Florianópolis.

A presença da greve estudantil na manifestação serviu para esse intuito, de ressaltar a importância da defesa da educação pública e gratuita, com acesso e permanência para a juventude periférica, e buscou iniciar um vínculo entre o movimento estudantil e comunitário, a partir das pautas comuns e mais urgentes a esses setores.

As lideranças da comunidade convidaramas estudantes a estender seu apoio de forma permanente, contribuindo com um projeto de agroecologia que está sendo articulado no morro.

No próximo sábado (5) haverá um primeiro mutirão, ao qual estudantes se comprometeram a apoiar.

Carta à greve #2

Mesmo com a greve das trabalhadoras e trabalhadores dos Correios, nossa segunda carta chegou. E é justamente sobre a adesão nos últimos dias a essa tática, dentro do campo da educação e nas demais categorias da classe trabalhadora, que queremos refletir em nossa segunda escrita coletiva sobre impressões e esperanças da greve que se desenha na UFSC. Embora a categoria docente tenha optado, na semana passada, por não aderir à greve de tempo indeterminado, acreditamos que temos bons motivos para continuar com toda a força.

1. No embalo domovimento da UFSC, já vemos outras universidades pautarem a greve

Nossas companheiras e companheiros de outras universidades nos enchem de uma alegre rebeldia e da certeza de que essa luta está para muito além de nós. Desde 17 de setembro, as estudantes do campus Jaguarão da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) estão paralisadas em luta. Na UNESP de Marília (SP), houve paralisação nos dias 18 e 19 de setembro com chamado a uma Greve Nacional da Educação. As docentes da UFPR, nossa vizinha do Paraná, tiraram indicativo de greve por tempo indeterminado e assembleias estudantis também têm discutido a construção da greve. Na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a Reitoria foi desocupada após a vitória na reivindicação pelo pedido de destituição do interventor Recktenvald, a ser aprovado no Conselho Universitário – decisão acompanhada de perto pela categoria docente, que discute uma greve por tempo indeterminado caso o interventor não saia.

2. A luta pela educação é também uma luta contra o desemprego

Enfrentamos tempos muito difíceis para a educação pública, mas não podemos perder de vista que a vida está dura para todo o povo. Neste ano, foram milhares de pós-graduandas e pós-graduandos com as bolsas cortadas, retribuição que é a única fonte de sustento de muitas trabalhadoras que produzem pesquisa no país. Realizar produção acadêmica e científica é uma forma de trabalho importante para a sociedade, que ocupa tempo e esforço significativos, mas que opera em uma lógica de precarização ao não oferecer salário real nem direitos trabalhistas. Por isso, cortes nas bolsas são sinônimo de aumento do desemprego em massa que vive a classe trabalhadora brasileira!

Além disso, os cortes no orçamento da UFSC levaram à demissão de quase 100 trabalhadoras e trabalhadores terceirizadas. Por todo o Brasil, esses cortes significam mais milhares de pessoas sem emprego. Essa situação só reforça o atual quadro de crescimento alarmante dos trabalhos precarizados e sem direitos, os fenômenos da terceirização e uberização que avançam junto com o projeto neoliberal, explícito em propostas como a Reforma Trabalhista, aprovada em 2017.

A verdade é que o “trabalhador brasileiro é tratado que nem lixo”! É fundamental que nossa greve fale alto e fale sempre: estamos na luta junto ao povo por serviços públicos, direitos sociais e por mais emprego!

3. A precarização do trabalho e aumento no custo de vida serão enfrentadas com luta popular e mais greves

Porém, que nem o Criolo, estamos “pra ver um daqui sucumbir”. Historicamente a precarização da vida sempre foi respondida através de lutas coletivas por melhores condições. O aumento do custo de vida, aliado às altas taxas de desemprego e sub-emprego, são uma afronta direta à classe trabalhadora que é sentida na pele.

A greve é uma maneira concreta de responder àqueles que nos roubam lá de cima, em um projeto colocado em prática pelo Estado e o mercado. Assim, ressaltamos que trabalhadoras dos Correios começaram recentemente a primeira greve nacional deste ano, na luta contra a privatização da companhia pública que, desde 1663, possibilita a correspondência entre gente dos mais diversos lugares. Quem não lembra do filme Central do Brasil e tudo o que uma carta carrega na história de nosso povo?

Além dos Correios, trabalhadoras da CELESC (Centrais Elétricas de Santa Catarina) estão para entrar em greve na próxima segunda-feira, dia 23, reivindicando o que a empresa não cumpriu desde o último acordo. A categoria dos petroleiros também está em estado de mobilização e há discussão sobre greve, após a intenção da Petrobras em não renovar o Acordo Coletivo de Trabalho – a proposta da empresa foi rejeitada e, neste momento, há mediação junto ao Tribunal Superior do Trabalho. A categoria dos caminhoneiros é mais uma que discute a possibilidade de greve, frente ao não cumprimento das tabelas mínimas de frete e o aumento do diesel anunciado na última semana.

4. Construção da greve com a força de cada setor que luta ao nosso lado

É dentro desse panorama de lutas, indignação popular e grandes necessidades materiais que nós começamos há duas semanas uma greve estudantil e chamamos o país a uma greve nacional da educação. Nossa pauta é justa e urgente: as bolsas que sustentam nossas pesquisadoras, o dinheiro que garante o emprego das trabalhadoras terceirizadas, a manutenção do restaurante que nos alimenta e a continuidade da educação pública, acessível às classes oprimidas. A verdade é que não temos nem mesmo do que abrir mão: são reivindicações básicas que cada uma de nós precisa.

A vitória do movimento grevista é incerta, é verdade. Porém, nossa escolha foi feita na coragem e na certeza de que a ação direta é a arma que nos temos. Temos a certeza da história vitoriosa de greves construídas em todo o mundo, em que o povo organizado conseguiu fazer valer seus direitos e sua vida digna. Também temos a certeza de que não estamos sós: a luta se expande por toda parte onde há injustiça. Se a Amazônia queima nas mãos do latifúndio e a violência policial é norma nas periferias de Florianópolis e do Brasil, é com uma greve geral que conseguimos unir nossas indignações e dar um basta a esse projeto de morte.

Dentro da UFSC, temos a decisão das servidoras técnicas pela greve nesta semana. Também temos quase 400 docentes que votaram pela greve por tempo indeterminado e novas ações de mobilização que serão propostas, incluindo a adesão aos dois dias de paralisação nacional da educação – que só terá qualquer utilidade se servir para impulsionar a construção da greve nacional por tempo indeterminado, o quanto antes.

A luta não para no primeiro obstáculo. Sem perder a fé em nós e em nosso horizonte de vitória: se a luta parece incerta, encontremos a certeza nos olhos de nossas compas lado a lado, dentro da UFSC, nas outras universidades em que a luta se fortalece, nos Correios, na CELESC e nas demais categorias em luta!

NÃO TÁ MORTA QUEM PELEIA!
RUMO À GREVE GERAL!

Resistência Popular Estudantil – Floripa
23 de setembro de 2019